Mesas de Conversação: Um espaço de aprendizagem não formal do Português como Língua Não Materna

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Realizou-se no dia 9 de maio, na Escola Secundária Poeta Joaquim Serra, uma Sessão de Mesas de Conversação dirigida aos adultos que frequentam as aulas de Português para Falantes de Outras Línguas (PFOL), níveis A1+A2 e B1+B2.

A face dos fluxos migratórios em Portugal tem mudado significativamente nas últimas décadas. Tradicionalmente visto como um país de emigrantes, Portugal passou a ser, em simultâneo, um país de destino para vários movimentos migratórios oriundos de geografias plurais: de países de Língua Oficial Portuguesa (Brasil e PALOP), mas também de países da Europa Central e do Leste (mormente da Ucrânia, Roménia e Rússia), do extremo oriente (sobretudo da China, Índia, Nepal e Tailândia), bem como de outros países da União Europeia (com destaque para a Itália, a França, a Alemanha e o Reino Unido)[1].

Vários são os estudos que têm analisado as alterações e caraterísticas mais significativas destes movimentos migratórios, tendo em conta o seu perfil etário, de género e de qualificações, as suas motivações de deslocação nos territórios, as regiões de destino, a sua relação com o mercado de trabalho, entre outras variantes de análise pertinentes sobre esta realidade social (Moreira, 2005; Peixoto 2004, 2008; Rego et al, 2010). Neste contexto de permanente mutação, a aprendizagem do Português como Língua Não Materna tem tido desenvolvimentos desafiantes, nomeadamente quando se trata de proporcionar a aprendizagem da Língua à população adulta. Note-se que a maioria dos imigrantes (residentes permanentes ou temporários) são cidadãos em idade ativa, com elevada concentração nas faixas etárias dos 20 aos 45 anos.

Foi tendo em conta esta população que foi criada a formação em Português para Falantes de Outras Línguas, considerando que esta realidade traz consigo a evidência de que a Língua é um instrumento incontornável no processo de integração plena, que promove a possibilidade da partilha dos hábitos, costumes, lógicas de funcionamento e espaços de intervenção no país de acolhimento. O domínio da Língua traz consigo, não só o conhecimento dos direitos e deveres que assistem a qualquer cidadão em território nacional, como também a autonomia fundamental ao seu desenvolvimento e participação pessoal, profissional e social nesse mesmo território.

É neste contexto que surge uma das ofertas formativas mais expressivas em Educação de Adultos no Agrupamento de Escolas Poeta Joaquim Serra, no Montijo. Nos últimos dois anos, foram já concluídos 5 Cursos de PFOL (4 de nível A1/A2 e 1 de B1/B2, com cerca de 130 pessoas envolvidas), estando, neste momento, em desenvolvimento 2 Cursos de A1/A2 (rondando os 50 formandos).  No entanto, a continuidade e consolidação dessa aprendizagem tem ficado seriamente comprometida, dado que a dinâmica de procura/oferta acaba por determinar a abertura de vários Cursos de A1/A2, nível ao qual é dada, naturalmente, prioridade, face ao número significativo de inscrições.

Uma das necessidades que esta população manifesta frequentemente tem a ver, precisamente, com a necessidade de continuidade da aprendizagem da Língua.  Frequentemente “fechados” em comunidades sociolinguísticas marcadas pelos seus países de origem, as oportunidades que esta população tem para praticar a Língua do país de acolhimento são escassas e/ou circunscritas a enunciados orais de nível muito elementar. Muitos dos ex formandos de PFOL mantêm a sua perseverança e motivação em aprofundar o seu domínio linguístico em Português, dado que percebem que isso lhes facilita a vida do dia a dia, seja na procura de emprego, no acesso aos serviços de apoio social e de saúde, no acompanhamento da escolaridade dos filhos, ou até mesmo no melhor entendimento sobre as formas de participação na vida social, cultural e política do país.

Como forma de encontrar uma resposta alternativa para esta necessidade, realizou-se uma sessão de Mesas de Conversação[2], metodologia de educação não formal que é amplamente implementada em países francófonos e anglo-saxónicos, com larga tradição de acolhimento e integração das suas vagas migratórias. Esta metodologia tem como principal objetivo promover a consolidação do uso da Língua Não Materna num ambiente informal, tanto quanto possível, em que os "conteúdos" e as "estratégias" de conversação são aqueles que os adultos escolhem para resolver as suas necessidades, em tempo e contexto real de comunicação, libertos da formalidade intrínseca do espaço e da vivência de uma sala de aula. Assim, em mesas de 5 a 6 elementos de várias nacionalidades e com vários níveis de proficiência linguística, com a ajuda de um moderador (um formador ou um formando dos Cursos EFA de Secundário), debateram-se temas da vida quotidiana ao sabor das ideias e dos discursos de cada um dos intervenientes.

 

A Docente Sandra Rodrigues


[1] Segundo as Estatísticas Demográficas-2017, do Instituto Nacional de Estatísticas.

[2] Equivalente ao francês Tables de Conversation, ou Coffee Talk, em inglês.


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