Mesas de Conversação: Um espaço de aprendizagem não formal do Português como Língua Não Materna
Publicado em 2019-05-09
Realizou-se no dia 9 de maio, na Escola Secundária
Poeta Joaquim Serra, uma Sessão de Mesas de Conversação dirigida aos adultos
que frequentam as aulas de Português para Falantes de Outras Línguas (PFOL),
níveis A1+A2 e B1+B2.
A face dos fluxos migratórios em Portugal
tem mudado significativamente nas últimas décadas. Tradicionalmente visto como
um país de emigrantes, Portugal passou a ser, em simultâneo, um país de destino
para vários movimentos migratórios oriundos de geografias plurais: de países de
Língua Oficial Portuguesa (Brasil e PALOP), mas também de países da Europa
Central e do Leste (mormente da Ucrânia, Roménia e Rússia), do extremo oriente
(sobretudo da China, Índia, Nepal e Tailândia), bem como de outros países da
União Europeia (com destaque para a Itália, a França, a Alemanha e o Reino
Unido)[1].
Vários são os estudos que têm analisado as
alterações e caraterísticas mais significativas destes movimentos migratórios,
tendo em conta o seu perfil etário, de género e de qualificações, as suas
motivações de deslocação nos territórios, as regiões de destino, a sua relação
com o mercado de trabalho, entre outras variantes de análise pertinentes sobre
esta realidade social (Moreira, 2005; Peixoto 2004, 2008; Rego et al, 2010). Neste contexto de
permanente mutação, a aprendizagem do Português como Língua Não Materna tem
tido desenvolvimentos desafiantes, nomeadamente quando se trata de proporcionar
a aprendizagem da Língua à população adulta. Note-se que a maioria dos
imigrantes (residentes permanentes ou temporários) são cidadãos em idade ativa,
com elevada concentração nas faixas etárias dos 20 aos 45 anos.
Foi tendo em conta esta população que foi
criada a formação em Português para
Falantes de Outras Línguas, considerando que esta realidade traz consigo a
evidência de que a Língua é um instrumento incontornável no processo de
integração plena, que promove a possibilidade da partilha dos hábitos, costumes,
lógicas de funcionamento e espaços de intervenção no país de acolhimento. O
domínio da Língua traz consigo, não só o conhecimento dos direitos e deveres
que assistem a qualquer cidadão em território nacional, como também a autonomia
fundamental ao seu desenvolvimento e participação pessoal, profissional e
social nesse mesmo território.
É neste contexto que surge uma das ofertas
formativas mais expressivas em Educação de Adultos no Agrupamento de Escolas
Poeta Joaquim Serra, no Montijo. Nos últimos dois anos, foram já concluídos 5
Cursos de PFOL (4 de
nível A1/A2 e 1 de B1/B2, com cerca de 130 pessoas envolvidas), estando, neste
momento, em desenvolvimento 2 Cursos de A1/A2 (rondando os 50 formandos).
No entanto, a continuidade e consolidação dessa aprendizagem
tem ficado seriamente comprometida, dado que a dinâmica de procura/oferta acaba
por determinar a abertura de vários Cursos de A1/A2, nível ao qual é dada,
naturalmente, prioridade, face ao número significativo de inscrições.
Uma das necessidades que
esta população manifesta frequentemente tem a ver, precisamente, com a
necessidade de continuidade da aprendizagem da Língua. Frequentemente “fechados” em comunidades sociolinguísticas
marcadas pelos seus países de origem, as oportunidades que esta população tem para
praticar a Língua do país de acolhimento são escassas e/ou circunscritas a
enunciados orais de nível muito elementar. Muitos dos ex formandos de PFOL
mantêm a sua perseverança e motivação em aprofundar o seu domínio linguístico
em Português, dado que percebem que isso lhes facilita a vida do dia a dia,
seja na procura de emprego, no acesso aos serviços de apoio social e de saúde,
no acompanhamento da escolaridade dos filhos, ou até mesmo no melhor
entendimento sobre as formas de participação na vida social, cultural e
política do país.
Como forma de encontrar uma resposta alternativa
para esta necessidade, realizou-se uma sessão de Mesas de Conversação[2],
metodologia de educação não formal que é amplamente implementada em países
francófonos e anglo-saxónicos, com larga tradição de acolhimento e integração das
suas vagas migratórias. Esta metodologia tem como principal objetivo promover a
consolidação do uso da Língua Não Materna num ambiente informal, tanto
quanto possível, em que os "conteúdos" e as "estratégias"
de conversação são aqueles que os adultos escolhem para resolver as suas
necessidades, em tempo e contexto real de comunicação, libertos da formalidade
intrínseca do espaço e da vivência de uma sala de aula. Assim, em mesas de 5 a
6 elementos de várias nacionalidades e com vários níveis de proficiência
linguística, com a ajuda de um moderador (um formador ou um formando dos Cursos
EFA de Secundário), debateram-se temas da vida quotidiana ao sabor das ideias e
dos discursos de cada um dos intervenientes.
[1] Segundo
as Estatísticas Demográficas-2017, do
Instituto Nacional de Estatísticas.
[2]
Equivalente ao francês Tables de
Conversation, ou Coffee Talk, em
inglês.
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